Uniformização das Línguas de Sinais?
- Louise Mariane
- 14 de jan.
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Atualizado: 14 de jan.
SERIA POSSÍVEL UMA UNIFORMIZAÇÃO DAS LÍNGUAS DE SINAIS?
Certa vez, uma pessoa que ao descobrir que a Língua de Sinais Brasileira (Libras) não é universal, e que surdos de países distintos não se compreendem linguisticamente, proferiu o seguinte comentário: “Não seria melhor que houvesse uma língua de sinais única, que fosse compartilhada por todos os surdos? Creio que isto facilitaria a comunicação entre eles”.
Após este comentário, busquei refletir acerca do tema. O Gestuno, por exemplo, é uma forma de comunicação por sinais de maneira universalizada, ele é bastante utilizado em eventos internacionais que reúnem surdos de diversas nacionalidades num único local e, tem a função de facilitar a comunicação entre seus interlocutores. No entanto, a pessoa que fez este comentário, certamente não estava falando sobre um idioma sinalizado universal, comum a todos as pessoas surdas em conferências; mas sim, que todos as nações adotassem como idioma único uma exclusiva língua de sinais.
O espanto das pessoas ao descobrirem que a Libras não é universal sempre me intrigou, afinal, bastava que as pessoas se atentassem a tradução da sigla Libras - Língua BRASILEIRA de Sinais - que elas, intuitivamente, iram supor que países diversos substituiriam o termo “brasileira” pelos seus próprios adjetivos pátrios. Ou será que a Tailândia adota a sinalização brasileira em seu território? [risos]
Não posso negar que o mesmo ocorrera comigo há muitos anos atrás, quando não conhecia absolutamente nada sobre a Libras e, tampouco, sobre os numerosos idiomas sinalizados.
Entender sobre o poder dinâmico de uma língua não parece ser algo que costumamos discutir num almoço em família.
Apesar do meu leiguismo, gostaria de, sob minha perspectiva, oferecer uma resposta à pessoa que questionou sobre uma possível uniformização das línguas de sinais.
Assim como as espécies evoluem devido sua capacidade de adaptar-se ao meio, as línguas me parecem obedecer ao mesmo princípio. Se pudesse atribuir uma característica elementar aos idiomas, diria que são como seres vivos e que possuem vidas próprias. Um ser humano, por exemplo, ao partir de um ambiente que tem clima desértico para um espaço frio e úmido busca adaptar-se com vestimentas que comportem a nova condição atmosférica. O mesmo ocorre com um animal selvagem faminto que, em proximidade com humanos, mitiga sua bestialidade em troca de alimentos. As plantas também são capazes de adaptarem-se conforme a umidade da região em que se encontram. E tudo isso, ao longo de milhares de anos, gera uma identidade única que os distinguem dos demais seres (ainda que fossem de uma mesma espécie).
Por tanto, a língua, comportando-se como um ser vivo, é capaz de modificar-se frente a diferentes circunstâncias – sejam climáticas, geográficas, culturais etc. E, com o passar do tempo, assim como os humanos, animais e plantas, a língua se fragmentaria e conceberia diferentes formas de expressão a respeito do significado das coisas; poderia então, originar novas identidades linguísticas.
Trazendo esta questão para o universo linguístico das línguas de sinais, tomaremos como exemplo a Língua de Sinais Brasileira e a Língua de Sinais Chinesa:
No Brasil o sinal da palavra árvore é representado de maneira diferente do sinal chinês. Enquanto no Brasil este sinal representa um tronco, com sua frondosa copa de folhas; na China, denota-se que o sinal faz alusão apenas ao tronco. Este fenômeno deriva das diferenças entre a flora dos dois países. Por esta razão, ambas as sinalizações (ainda que tenham o mesmo significado) sofreram interferência. O Brasil, por ser um país cercado de árvores com grandiosas copas, faz com que seus nativos ao imaginarem uma árvore, lembrem imediatamente desta característica, influenciando o idioma sinalizado; enquanto isso, no país asiático, pela presença marcante de árvores como o bambu, cujo tronco não possui copa, a população sinalizante tem maior inclinação a imaginar árvores com aparência de bambus. Diante do apresentado, podemos inferir que os idiomas sinalizados se adaptaram às características apresentadas nestes ambientes.
Ademais, não faz sentindo um país que apresente forte carência tecnológica, expresse um grande vocabulário com termos informáticos em seu cotidiano. Ou, que países com cultura predominantemente religiosa construa vocábulos ou expressões idiomáticas de origem laica (não quer dizer que não exista, o que está sendo exposto é que a língua irá se adaptar ao que o ambiente, a cultura, a flora, as crenças etc. oferecem a ela).
Há estudos que observam este fenômeno linguístico até mesmo no Esperanto, que é considerado uma língua planejada com propósito de interação social universal. Tudo isto, devido às singularidades que a sociedade e seu espaço geográfico apresentam.
Dito isto, o que podemos refletir é: Qual a motivação da pessoa ao acreditar que a uniformização das línguas de sinais seria benéfica à população surda? Se eu pudesse responder esta pergunta com uma outra pergunta eu diria: porque você [provavelmente] deseja aprender novos idiomas oralizados, em vez de pensar que todos nós deveríamos usar uma única língua oralizada?
Talvez a resposta esteja atrelada ao fato de que pessoas não surdas, com pouco ou nenhum vínculo com as línguas de sinais, ainda não enxerguem os idiomas sinalizados como de fato línguas. Esta subalternização das línguas de sinais, mesmo que de maneira inconsciente, atrapalha o desenvolvimento de políticas linguísticas e a livre circulação destes idiomas na sociedade. Todos os idiomas sinalizados são ricos em gramática, história e cultura e passam por adaptações assim como os idiomas orais (sem contar os benefícios cognitivos da pessoa surda ao aprender um novo idioma). As dinamicidades dos idiomas independem (apenas) do ser humano, pois são autônomas com comportamentos próprios. Portanto não deveríamos pensar em extingui-las afim de “facilitar” a vida da pessoa surda e, mesmo que acontecesse, pelas justificativas citadas, seria improvável sua estagnação diante do tempo, cultura e geografia.



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