A Escrita de Surdos
- Louise Mariane
- 14 de jan.
- 6 min de leitura
Atualizado: 14 de jan.
Olá, leitores. Tudo bem?
Este post tem a finalidade de conscientizar internautas não surdos sobre a existência do português como segunda língua para pessoas surdas. Para isso, contará com informações sobre surdos e sua particular forma de escrever, bem como o comportamento dos internautas diante do diferente. Pretende-se, além da divulgação, valorizar os esforços das pessoas surdas ao escreverem em língua portuguesa e estimular novas produções escritas a fim de atingirem a fluência.
A motivação por trás deste post deu-se após a autora observar a reação de internautas não surdos em uma publicação criada por uma internauta surda. Neste espaço serão compartilhados textos e imagens que tenham o propósito de informar sobre a escrita de surdos sob a perspectiva de segunda língua.
Tradução em Libras: https://www.youtube.com/watch?v=-qV-i-N1vPA&ab_channel=LouiseMariane

TEXTO SOBRE A ESCRITA DE PESSOAS SURDAS E O COMPORTAMENTO DE INTERNAUTAS NÃO SURDOS NAS REDES SOCIAIS
O Twitter, razão pela qual a autora escreve este texto, é uma das redes sociais com mais usuários no Brasil, sua funcionalidade se baseia no compartilhamento de informações e entretenimento; tem como principal forma de interação entre os usuários a escrita, que é delimitada a 280 caracteres por postagem. Considerando que o idioma oficial do Brasil é a língua portuguesa e os utentes desta rede no país são em sua maioria brasileiros, infere-se que as relações interpessoais se dão nesta linguagem. No entanto, para alguns usuários o ato de escrever transforma-se numa enxurrada de humilhações; este é o caso vivido pelas pessoas surdas no Brasil.
O processo de registrar uma língua na modalidade escrita se inicia ainda na infância quando ouvimos um idioma de nossos pais; apesar dos familiares adequarem a forma de falar para uma linguagem mais simples, ainda assim costumam obedecer a estrutura da língua e, por conseguinte, as crianças aprendem naturalmente a construir sentenças gramaticais antes mesmo de aprenderem a identificar as letras; quando chegam ao período de alfabetização, tudo o que precisam fazer é combinar os sons já internalizados com as letras que são ensinadas na sala de aula. As crianças que não ouvem, entretanto, ainda no seio familiar, não absorvem as palavras nem mesmo as disposições destas numa frase e isto impacta diretamente na construção da sua escrita. Em realidade, a criança surda em muitos casos é linguisticamente negligenciada. A criança que nasce surda ou adquire a surdez ainda em fase pré linguística – isto é, sem aprender o essencial de uma língua –, está sujeita, salvo exceções, a ter interferências na sua forma de escrever. É possível observar este fenômeno principalmente em surdos com comprometimento severo ou total da audição que tiveram atrasos na aquisição de uma língua.
Para contextualizar, pensemos numa criança brasileira que nasce severa ou totalmente surda num ambiente familiar completamente ouvinte, ou seja, todos os familiares desta criança ouvem, apenas ela não. Pensemos ainda que esta família tem pouca ou nenhuma instrução a respeito da aquisição de uma língua e sua importância na constituição do ser humano – esta é a realidade da maioria de nós, como aprendemos uma língua naturalmente, pouco percebemos os efeitos dela na nossa vida porém a língua é, acima de tudo, a maneira pela qual socializamos uns com os outros –; a criança, à partir do diagnóstico de surdez, passa a ser vista pelos familiares apenas pela sua condição (a surdez) e por não adquirir a língua de maneira convencional, como a maioria de nós, acaba encontrando sua primeira barreira linguística; essa criança cujo os pais não conseguem transmitir a língua portuguesa em suas interações habituais inicia um processo de distanciamento social – o maior vilão de uma língua –. Em muitos lares, em decorrência da classe social, a família sequer tem conhecimento do uso de aparelhos auditivos ou mesmo da Libras e por tanto, há um relaxamento dos cuidados nos períodos iniciais da criança, que é quando, segundo especialistas da área da linguística, ela está mais propensa a absorver uma comunicação. Ao iniciar a fase de alfabetização, a criança nem ao menos consegue se comunicar; ela não ouve e por isso não reconhece os sons das letras e das palavras, em decorrência não consegue identificá-las e ordená-las no momento de escrever e como resultado sua escrita é prejudicada.
Há ainda aquelas crianças surdas que aprenderam a língua de sinais brasileira (Libras) e que, assim como um falante nativo do português recorre à sua estrutura linguística para se expressar em outra língua, um nativo da Libras usará do mesmo recurso para se expressar em língua portuguesa. O português e a Libras seguem modalidades diferentes, enquanto na língua portuguesa a comunicação se dá por vias orais e auditivas, na língua de sinais brasileira acontecerá por meios visuais e espaciais. O sujeito surdo nativo da Libras buscará ordenar a escrita do português baseando-se na estrutura que ele já conhece e compreende bem e é neste momento em que acontecem os julgamentos e olhares negativos em relação a pessoa surda. Na Libras, há pouca ou nenhuma conjunção e preposição; as flexões verbais seguem a padrões diferentes dos usuários da língua portuguesa e o repertório visual influencia muito nas sentenças. Para a pessoa surda, o português é de fato uma língua estrangeira e, assim como temos dificuldades em inserir as palavras in, on, of, to, for etc., os surdos também estranham palavras como de, da, do, em, que e outros recursos linguísticos. Para exemplificar como o repertório visual também influencia na escrita de um sujeito surdo, darei um relato sobre minha experiência com um colega surdo.
No início de minha graduação em Licenciatura em Língua de Sinais Brasileira – Português como segunda língua, pela Universidade de Brasília (UnB), vivi a seguinte situação: um colega surdo me escreveu “Vamos estufa de fila?”; eu, intrigada com o bilhete nada compreendi. Anos mais tarde, já adquirido mais experiência visual, compreendi. Deixe-me explicar o que seria “estufa de fila”. Na Universidade as paradas de ônibus costumam ter estruturas padronizadas, exceto uma delas, essa parada específica possui formato de estufa na parte superior (teto) e por tanto, o colega assimilou a figura de uma estufa à uma parada de ônibus; o colega em questão conhece a palavra “parada de ônibus”, contudo optou por não a utilizar porque poderia remeter a qualquer outra parada de ônibus da UnB; ele estava falando de uma parada de ônibus específica, aquela que se parece com uma “estufa”. Meu colega, portanto, trouxe sua estrutura visual da Libras para a língua portuguesa. O mesmo ocorreu com a palavra “fila”; essa “estufa” é bastante extensa, chegando a abrigar mais de 50 alunos enfileirados e por isso, escolheu este recurso na hora de escrever. Nota-se que o mesmo não utilizou a preposição “para a” já que, meu colega não tinha domínio suficiente para ordená-la numa frase por ser uma palavra advinda da língua portuguesa e não da Libras.
Os surdos brasileiros, de certa forma, se assemelham a estrangeiros com o diferencial que estes se encontram em seu próprio país. A exceção é que ainda assim um estrangeiro de fato, por compartilhar da mesma modalidade linguística (oral-auditiva), consegue sem grandes entraves garantir uma comunicação plena valendo-se de um idioma em comum (inglês, por exemplo) entre os interlocutores. Para estas pessoas há ainda maior facilidade no ato da escrita já que, escrevemos obedecendo às estruturas de uma determinada língua por estarmos constantemente sendo expostos a ela; um estrangeiro que ouve tem, por tanto, mais opções de interação ao aprender uma segunda língua. Surdos com pouco ou nenhum domínio sobre a oralização e leitura labial tem como forma de interação com seus pares a Libras ou a escrita. Levando em consideração que uma porcentagem mínima de brasileiros tem competência linguística em Libras, o sujeito surdo é compelido a escrever em língua portuguesa e, em razão das justificativas já citadas, sofre hostilidades por parte de internautas não surdos nas redes sociais. Como resultado, muitos surdos sentem vergonha da própria escrita gerando um grande bloqueio emocional que os fazem desistir de escrever e evoluir sua capacidade de escrita.
É preciso nos sensibilizarmos e entendermos que escrever em português exige um grande esforço por parte dos surdos e que, sabendo disso, devemos incentivar o escritor surdo a evoluir sua escrita; não a depreciá-la. Pensando nisso a autora propõe a criação deste post em prol do escritor surdo, que tem como objetivos principais divulgar a existência do português como segunda língua para pessoas surdas, conscientizar o leitor ouvinte sobre seu comportamento diante desta escrita, valorizar os esforços das pessoas surdas ao escreverem em outra língua e estimular novas produções escritas por surdos a fim de que adquiram fluência na língua portuguesa. Serão divulgados também, fotografias anônimas de postagens de pessoas não surdas depreciando pessoas surdas para fins educativos.
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Abaixo estão alguns dos comentários que motivaram a autora a criar esta postagem. Estes comentários foram feitos após uma pessoa surda interagir numa postagem de entretenimento na plataforma Twitter.





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